Adultos

Quando eu era pequena achava que os adultos não tinham sentimentos. Eles não se apaixonavam, não namoravam, não riam nem tinham orgasmos. Aliás, quando primeiramente descobri o que era sexo, foi vendo os filmes na televisão, e sempre achei que só os homens tinham orgasmos. As mulheres só serviam de tipo "porto seguro", um lugar quentinho para colocar o órgão de reprodução masculina. Por isso que as mulheres engravidavam e os homens não - afinal, eram eles que colocavam o bebê lá dentro. Bem, enfim, eu achava que adultos não sentiam nada - só viviam para trabalhar, sustentar os filhos e dormir. E colocar bebês nas barrigas das mulheres.

Afinal, como eu podia ser tão intensa, sentir tudo a minha volta, agir muito mais instintivamente e emocionalmente do que de modo racional, e ninguém mais ser assim? A minha mãe era tão fria, eu sempre voltava pra casa chorando por causa de um olhar, uma risada, um tapa, qualquer coisinha. E ela sempre ficava naquela seriedade toda. Não sentia nada. Então passei a ver que o "adulto" era algo muito acima da minha concepção, algo técnico, como matemática, frio, exato, apenas números escritos no papel que era o mundo. No final, aquilo só aumentava a minha intensidade, porque eu tentava me prender mas não conseguia. Então voltava pra casa chorando e mamãe só ficava lá, calada, fria, impassível.

E também não entendia porque eles sempre se controlavam. Eu sempre estava fervilhando, com os sentimentos à mostra, para todos ver. Eu era transparente. Mas os adultos não. Eles sempre estava lá, escondidos, empacotados em suas roupas grandes demais, em seus paletós e caras sérias. Ninguém sorria. E eu voltava para casa derramando lágrimas enquanto lá fora os pais dos meus vizinhos os recolhiam, com caras impassíveis, cansadas ou apenas adultas.

Até que comecei a assistir mais filmes que diziam isso. Os adultos nada mais eram que impassíveis, apenas vivendo no mundo para fazer o dinheiro circular. Apenas trabalhando, saindo cedo e chegando tarde, sem dar o mínimo de atenção ao que lhes rodeava. Acho que por isso que nunca fui consumista, de entrar num shopping e comprar horrores só para me sentir melhor (conheço pessoas assim e nunca entendi como é que isso lhes faz tão bem). Eu não comprava para me sentir melhor porque eu achava que estaria sendo igual aos adultos que eu conhecia, ou pensava que conhecia, ou analisava - mesmo que não lembre de nada. Eu achava que estava sendo igualzinha a eles, somente gastando o dinheiro que consegui com o meu trabalho. Nada mais. Nenhum sentimento, nenhum apego, nada.

Demorei para entender que, no final das contas, as pessoas só estão fugindo de si mesmas e por isso fingem que são cultas e frias, para não ter de se apegarem a ninguém por saber que, a qualquer momento, aquela pessoa pode ir embora. Ou pode lhe trazer problemas piores. Então, se apegam as coisas, ao material, às compras, só porque supostamente demoram mais para acabar. Trabalham para ganhar. E vivem para gastar. Mal sabem que elas próprias tem fim, e até mesmo uma coisa comprada num shopping pode lhes trazer problemas ou acabar.

No final, todos nós só precisamos de uma dose de amor, de intensidade, aquela mesma que eu destilava tanto nos meus choros quando era criança. E ainda destilo, vez por outra, com mais frequência do que eu queria.

A gente só precisa de amor. Ou um livro gostoso num fim de tarde chuvoso. Ou um filme de terror.

No final, é tudo sobre o amor. E estão todos correndo, se escondendo, fugindo dele.

(e eu nunca vou entender o porquê)

~ quarta-feira, 4 de novembro de 2009 22 leitor(es)

Floquinho de neve

Querida Sofia,

Visualize: um floquinho de neve bem feito, daqueles que aparecem em filmes, está caindo neste momento na janela aqui da frente. Lá fora, as crianças brincam, fazendo bonecos de neve e atirando bolas de gelo fofinho uma nas outras. Eu não as ouço - as portas e janelas estão trancadas. E a neve cai sem parar...


Esta talvez seja uma foto perfeita para você, aliás, para muitos escritores: sentar-se à frente de uma janela, lá fora com neve, você com tantos casacos que perdeu as contas, e se deixar levar pelas teclas barulhentas da máquina de escrever. A minha nem é tanto - comprei naquele brechó que fomos um dia. Lembra? Ela é vermelhinha e pequena. Uma beleza.

Eu não sei como explicar, acho que isso só pode ser maior que eu. Você sabe que nunca fui tão boa quanto você nas letras - o meu ramo é mesmo aquele chato e jurídico. Mas o problema é que meu coração bate tão alto que não consigo controlar meus dedos, e só vou falando do quanto queria que você estivesse aqui para cutir esse espetáculo gelado que está lá fora, enquanto o floquinho de neve cai lentamente pela janela. Seria tão bom se você estivesse aqui, amiga, e assim me ajudaria em mil dúvidas que tenho quando escrevo - principalmente assim, despretensiosamente.

Com certeza, se você estivesse aqui, estaria agora batucando nessa máquina, prolongando seu próximo livro ou quem sabe escrevendo contos que me fazem mergulhar. Sinto tanta sede de te ler que fico procurando, em meio a essa neve toda de dezembro, algum livro que seja parecido com o seu. Que tenha o mesmo jeitinho miúdo e romântico de ser - e que, ainda sim, com um leve toque de sensualidade. Afinal, você sabe que sempre escreveu sobre o que você é, nada mais do que isso - mesmo que passasse horas conversando comigo sobre seus novos personagens. Eles nada mais eram do que personificações suas. E agora você me deixa sem eles, sem você, só comigo e toda minha formalidade.

Sinto que estou sendo sentimental demais, você sabe, isso não é de mim. Mas, de que adianta tentar remediar uma coisa que já está? Afinal, a saudade é tamanha que não consigo controlar. E meus dedos apenas vagam por essas páginas em branco, procurando algum sentido, alguma frase, alguma palavra que traduza a minha saudade por você. Porque só esse floquinho de neve caindo aqui da janela, e os gritos e risadas e brincadeiras das crianças lá fora - agora posso ouvir já que abri a porta - e todo esse clima frio e branco me faz lembrar você e suas escrituras, seus livros, seus contos e personagens. É você que eu procuro e não adianta tentar te achar em qualquer outro lugar, tudo aqui é frio demais, lânguido demais, distante demais - ninguém tem esse seu jeitinho afetuoso e lindo de ser.

Parece até que estou me declarando. Mas é que realmente sinto falta da sua amizade, do seu jeito cuidadoso e ao mesmo tempo tão destrambelhado. Tem lógica isso? Sinto falta até do seu jeito de arrumar as coisas, de se vestir, até de rir. Às vezes estou andando na rua e escuto sua risadinha abafada, às vezes vejo num espelho seu sorriso silencioso, mas tão verdadeiro. As ruas ficam até um pouco mais quentes quando lembro disso, quando lembro de você.

Olha, me desculpa se estou sendo piegas demais. É que hoje alguma coisa aconteceu, não sei se foi esse floquinho caindo na janela, ou as crianças lá fora, ou só a saudade do seu calor no meio dessa neve tão gelada, mas estou mesmo com saudades, e acho que vou morrer se você não aparecer logo por aqui - e poder usufruir livremente dessa máquina vermelhinha de escrever, diante dessa neve que inunda tudo e parece não mais ter fim.

Acho que já me alonguei demais. Por fim, o de sempre: Amo você e estou morrendo de saudades.

Vem logo.

Com carinho,
Luisa



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1- Me façam prometer de que não vou mais dizer que estou deixando o blog. Nunca consigo. Sempre que falo que tô dando um tempo, vem a saudade, aquela vontade louca de escrever... e aí, bem, é isso.
2 - Eu achei a foto dessa máquina de escrever em algum lugar que não lembro onde, então assim que achar, postarei.

~ segunda-feira, 12 de outubro de 2009 22 leitor(es)

Brincos de Princesa

A brisa leve carregava os lírios brancos, os lilases, as camélias em pequenos redemoinhos, fazendo o cheiro doce subir ao ar. Alguns pólens se soltaram e dançaram alegremente pelo jardim, dando voltas e rodopios até chegarem próximo a um narizinho no canto do caminho. A garotinha soltou um espirro miúdo, quase imperceptível, e limpou com as costas da mão o nariz. Mas isso não tirou sua atenção do colorido novo à sua frente.

Com as mãos pequeninas, ela tocava uma pétala branca da tão bonita e colorida flor nova que sua mãe tinha plantado no jardim, dentro de um vaso muito ornamentado. As folhas verdes caíam sobre a estrutura de cimento e os caules finos eram entortados para baixo, suspentendo assim as pétalas brancas, rosas e roxas formando pequenos botões. Era o brinco mais bonito que a garotinha já tinha visto, e só sabia que era um porque sua mãe lhe dissera o nome da flor. Não parecia nenhum dos dois, era quase uma espécie de milagre da natureza.

Suas mãozinhas rechonchudas seguraram a flor em forma de concha, direcionando-a para o sol poente de verão. As pétalas brancas e rosas disputavam lugar na base, as duas querendo sustentar a cúpula invertida de pétalas roxas no meio. Todas as cores resplandesciam nos raios de sol, quase ofuscando a vista da garotinha. Se ela olhasse um pouco mais adiante, a luz tomaria conta de seus olhos e sua visão viraria um mar de brancura. Mas ela focava sua atenção na beleza daquela flor, imaginando quem tivera a idéia esplêndida de criá-la daquele jeito, e daquelas cores.

-Liriana! - gritou uma voz familiar de dentro da casa. A garotinha não ouviu.

Uma mulher alta de cabelos longos saiu da casa e parou, antes de se aproximar. Observou a filha por um instante, vendo o quanto ela estava absorta na novidade do jardim. Sorriu, encantada com o encantamento da filha, e chamou mais uma vez, só que baixinho:

- Liriana, meu amor, que está fazendo aí?

A garotinha não respondeu. A mulher aproximou-se e dobrou as pernas, ficando na mesma altura da filha. Tocou de leve os cabelos dourados dela e, de súbito, a garotinha piscou e balançou rápido a cabeça, como se acordasse de um sonho.
- Mãezinha?
- Liriana, estou lhe chamando há séculos.
- Claro que não, eu não ouvi! - afirmou a garotinha voltando à flor.
- Pois estão estou chamando agora. Gostou da flor nova, não foi?
- Sim, sim! Adorei! - respondeu ela, empolgada - É linda, perfeita, maravilhosa!
- Humm... Que bom, então. Vou plantar mais dessas aqui. Agora vamos que estou terminando o bolo e preciso da sua ajuda.
- Oba! Bolo de chocolate!

A garotinha soltou delicadamente a mão da flor branca-rosa-roxa e entrelaçou os dedos com os da mãe, tão finos e bem pintados. Ajeitou o vestido e caminhou de volta para casa pelo jardim cheio de lírios e lilases e camélias e flores de vários tipos, além de um vaso ornamentado cheio dos mais lindos Brincos de Princesa.


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O blog deu uma parada porque to totalmente sem criatividade pra escrever qualquer coisa. Então, não estranhem se ao vir aqui ainda estiver tudo na mesma.

~ terça-feira, 29 de setembro de 2009 14 leitor(es)